Gaula, freguesia que se estende da serra ao mar, conhecida, desde os tempos que já lá vão, como a terra dos doutores. Doutores porque, apesar de pequena em número de habitantes, foi grande em licenciados (o que há 80 anos atrás era muito raro, pois a educação não chegava a todos, mas a penas a alguns), destacando-se um que julgo ser conhecido de todos: Padre Alfredo Vieira de Freitas, sacerdote, escritor, poeta e professor de Português e de Literatura Portuguesa.
Gaula, terra que me viu crescer e da qual guardo doces recordações.
Gaula, terra que me viu crescer e da qual guardo doces recordações.
Recordo-me da minha infância e das brincadeiras que partilhava com os meus dois irmãos (porque nesse tempo as criaças sabiam o que era brincar); da minha escola (e o meu primeiro castigo por não saber a tabuada!); das festas da santa padroeira, que nós aproveitávamos para dar uma olhadela de esguelha aos rapazes; do grupo de jovens; da Tuna e do tempo de namoro!!
Recordações, guardámo-las como pequenos tesouros que só a nós pertencem!
17 comentários:
O meu único castigo na primária (na minha escola essa "estratégia" não era muito usada, mesmo antes do 25 de Abril) foi um puxão de orelhas por não saber identificar no mapa o arquipélago dos Açores (eu estava em Moçambique, no outro hemisfério e e a noção de espaço nunca foi o meu forte ). A prova de que, realmente, eles - os castigos físicos - não são o melhor caminho - como advogam os pedagogos que, por vezes, nos irritam com as suas teorias - é que nunca me esqueci da humilhação (a dor foi quase inexistente) e continuo a não saber onde fica o Norte ( nem nenhum dos outros pontos cardeais, por arrastamento). Já agora, também tenho dificuldade em reconhecer imediatamente a direita e a esquerda, o horizontal e o vertical: se fosse aluna nos tempos que correm, os meus professores estariam a preencher um PEI (Plano Educativo Indivbidual, para esclarecimento da DêPê) e teria acompanhamento especializado...
Seni,gostei muito do teu poste.Tenho aprendido muito com os vossos textos acerca da ilha da Madeira, pois como não nasci cá, há muito coisa que ignoro em relação às diferentes freguesias desta bonita ilha. Também adoro ler as vossa memórias de infância!
São assim as recordações - tesouros escondidos dentro de nós. Vamos buscá-los muitas vezes: para o bem e para o mal.
Olha a HP. Afinal é NEE e ninguem tinha da do por isso.
Mas agora, fora de brincadeiras, a verdade é que há castigos que nos marcam. Ainda hoje, passados mais de 35 anos, não consigo olhar para uma das minhas professoras primárias sem me lembrar de uma reguada que me doeu mais na alma do que na mão. E a palavra espécie, escrita sem acento, motivo do castigo, continua a ser sinónimo de humilhação.
Leonor, li o teu comentário e identifiquei-me com ele. Lá na Venezuela, nas escolas em que estudei não davam reguadas, castigavam-nos de outras formas. Lembro-me uma vez que a directora da escola que era uma freira terrível e que também dava aulas.Leccionava uma disciplina que era sobre caligrafia. Tínhamos que fazer as letras iguais ao modelo da Caligrafia "Palmer", acho que era assim que se chamava. Só que eu tinha dificuldade em fazer aquelas letras, então como castigo mandou-me fazer várias cópias,utilizando essa caligrafia. Eu escrevi um caderno pequeno inteiro. Fiz tudo bem feitinho e entreguei-o na Direcção Executiva. Dias mais tarde, recebi-o durante uma aula e dizia:"O caderno não estava identificado, portanto não o corrijo." Tinha-me esquecido de colocar o meu nome. Lembro-me de ter chorado tanto! Principalmente, porque era a única aluna dessa turma que estava a cumprir esse castigo, e ela sabia que o caderno era meu. E esta, cara amiga, é só uma história, das tantas que viví naquela escola. Acho que hoje em dia, tenho tanta dificuldade em ser rígida e exigente com os alunos porque fiquei traumatizada, pela humilhação e a injustiça da qual fui vítima em várias ocasiões.
HP, eu também tenho dificuldade em reconhecer imediatamente a esquerda e a direita. E o meu sentido de orientação é mau. Há um tempo atrás, li sobre isso, tem a ver com a lateralidade, a cognição. Como sabes, o nosso cérebro tem dois hemísférios: o direito e o esquerdo. O direito controla o lado esquerdo do corpo, e o hemisfério esquerdo controla o lado direito.E parece que é um problema que se verifica num desses hemisférios. Naquele artigo que li, dizia ainda que as mulheres eram muito mais afectadas por este problema do que os homens. Enfim, o que é facto é que já me aborreci mais com isto do que agora, pois quando me concentro, consigo identificar sem problemas a direita e a esquerda.
Ah Seni! Gostei! Estava curiosa por saber que relação havia entre Gaula e doutores... Agora que já sei, continuo curiosa: sempre que ouço falar de ‘casos de sucesso, como esse número elevado de licenciados, fico a pensar na razão desse sucesso: mera coincidência ou alguma explicação para o sucesso... uma pessoa, um acontecimento?
Obrigada, HP: estou a actualizar os meus conhecimentos a pouco e pouco: PCT, NEE, PEI, SE, AP, uma lista interminável de novidades :( Já agora, quantos anos viveste em Moçambique? Tenho um grande amigo que lá viveu muitos anos e que me tem feito tais descrições que já penso que as vivi mesmo, especialmente de pôres-do-sol vermelhos e praias a perder de vista...
DêPê: dos 7 os 18 anos. Naquela terra tudo é a perder de vista... e era perfeitamente natural fazermos 200 K para irmos almoçar ou a uma praia (imagina a minha dificuldade, quando me diziam para fazer a mala e ir passar o fim-de-semana à Calheta ou ao Hotel, em Machico! Mas já me habituei.)No norte há praias espantosas, mas não as conheci. Lembro-me bem da praia da cidade, dos quliómetros de areal, da água quente, dos caranguejos mínusculos que fugiam mal nos pressentiam e se enfiavam em buracos de que só restava um ponto na areia e das alforrecas (havia alturas em que elas nadavam ao nosso lado ou ficavam, já mortas, na areia, sujeitas ao nosso massacre - espetávamos-lhes paus para as virarmos). No regresso a casa, depois do ritual de tentarmos livrar-nos da areia antes de entrarmos no carro - esforço inglório - parávamos à beira da estrada para comprarmos ameijoas - eram vendidas em velhas latas de óleo ou tinta e custavam 2 escudos e 50 centavos - ou caranguejo. Quando a minha mãe apresentava - ao Domingo - caril de caranguejo, nós dizíamos: "Outra vez?"
Também me lembro da praia do Bilene, onde a água era tão límpida que nós víamos uma conchinha no fundo. Descrever a cor seria trabalho para a Leonor ou para o Jordas... A praia da Macaneta - onde tínhamos uma palhota - era (ainda será?) um hino à natureza: sem infraestruturas, sem água potável, nada... "apenas" um areal imenso, um mar bravo e um vento furioso (quando soprava, éramos literalmente atacados pela areia). Não tomávamos banho de água doce, andávamos sempre de fato de banho e, na ida e no regresso, atravessávamos o rio num batelão ao lado de hipopótamos (nunca me esquecerei do tamnho das bocas abertas). Da praia da Ponta do Ouro retenho a imagem do mar a bater nas rochas.
Não esqueci as grandes avenidas ladeadas e divididas por coloridas e imponentes acácias (os passeios são maiores que muitas ruas do Funchal). O cheiro da terra depois de uma chuvada é algo que ninguém esquecerá.
E as cores, os mil cheiros, a vida dos mercados, as mamanas (mulheres adultas) a vender na rua, as capulanas (panos das mulheres) que abraçavam os corpos das mães e das crianças e,e,e....
Quando me perguntam se lá quero voltar, digo que não... se calhar tenho medo de destruir estas memórias.
HP, meti o nariz (e não só) no teu comentário. Estou boquiaberta! A menina viveu 11 anos em Moçambique... Que surpresa! (DP, este blogue é sem dúvida: um cantinho de revelações)
...Et je suis enchantée (está correcto, Nobita?) com a descrição das tuas memórias... São dignas de um «poste»... Um verdadeiro cartaz...
Seni, interesso-me muito pelas recolhas e estudos relacionados com o folclore madeirense... Por isto, aprecio o trabalho do teu vizinho Doutor, Padre Alfredo Vieira de Freitas.
Além disto, as tuas palavras fizeram-me também recordar a minha professora primária. Estava sempre bem «armada» de cana comprida e régua de madeira... Ai daquele que estivesse distraído... Zum!! Era infalível!
E, os «bolos»? Normalmente, eram distribuídos depois do ditado. A senhora professora sentava-se, na sua secretária, com a régua bem hirta, diante a fila de alunos cabisbaixos que temiam a sua vez de estender a mão... Cada erro, cada «bolo»...
HP: parece-me que bastaria um ano de vivências nessas paisagens fisica e humanamente tão ricas para se ficar 'marcado' para sempre... fora onze anos! Preenchem uma vida! Obrigada pelas tuas descrições: vieram tornar ainda mais vivas as minhas 'memórias' desse paraíso passado que nunca visitei ;)
Gaula, terra de doutores e de bom vinho, sobretudo na encosta virada a poente, sobre o vale extasiante do Porto Novo.
Era garoto, quando fui pela primeira vez para aqueles lados, mas recordo duma linda pequena de olhos claros e cabelos negros, bem bonita a pequena! Não creio que fosse doutora, nem gaulesa.
Jordas: adiantaste-te ;) as imagens só iam chegar ao blogue na próxima actividade ;) mas também vem mesmo a propósito desta 'matéria' da web 2.0... da identidade online que criaste, da tua página, etc... Estou a ver que agora, por razões mais práticas, tenho de te dizer obrigada novamente ;)
DêPê, estou sempre on, desde que o tempo não me fuja. É que, às vezes, tento amarrá-lo num maranho, mas ele esgueira-se entre os dedos e vontade de deixá-lo partir.
Jordas, por acaso estarás a duvidar da beleza das gaulesas?
Tudo o que há em Gaula é de boa qualidade!!!
Fernanda, agora mais do que nunca, percebo a tua maneira de ser para com os alunos,os castigos que apanhei não se comparam com os teus!!
Ola Seni, nunca duvidei da beleza ameixoada das gaulesas. Sempre as achei belas e doces como as ameixas amarelas. Mas que há umas "sumenas", lá isso há. Quanto à qualidade é uma questão relativa, tudo depende da certificação!!!!
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