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... se escrevem e apagam textos, imagens, filmes, etc, etc, ... conversando e desconversando e tentando descobrir para que servem os blogues na nossa vida profissional :)

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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Bolo de arroz a dois cruzados

Era pela maresia infantil das manhãs de e domingo, ainda eu vestia calções e usava “arrigeiras” pelos ombros, cruzadas no meio das costas. Lembro bem o cheiro do bolo de arroz feito de madrugada, e o sorriso da Sr.ª Madalena, quando me via chegar com os dois cruzados fechados na mão, de olhos vivos e brilhantes de desejo ao sopé da cabana do barbeiro. Ali estava ela com o balcão enfeitado de bordões, suspiros e colares multicolores de gulosos rebuçados. Recordo o aroma dos suspiros e os bolos de arroz alinhados a um canto do tabuleiro, alinhados como guerreiros; a giga, de vime descascado, servindo de pilar e apoiado no “pagão” de EEM, com a sua lâmpada, protegida por um prato branco na face inferior e verde na outra, ficava um bordão de cana e o guarda-chuva. Era ali, no Medeiros, no antigo entroncamento para o Santo da Serra, na cabeceira quatro do aeroporto, em frente da “bebreira” preta, que descia despreocupada o muro em pedra aparada e fazia as delícias dos fedelhos, no mês de Setembro, que ela todos os santos domingos montava a sua banca, pelas sete da matina.
O Silva, o barbeiro, desde as cinco que cortava cabelo e desfazia rijas barbas de rudes homens da lavoura, a sua petromax espalhava uma luz branca, visível, a muitos metros e que se tornava quase sol, quando eu passava em galhofa com os meus irmãos e vizinhos, pouco antes das seis, por debaixo das janelas que davam para o mar e para o enorme dragoeiro que embelezava a descida para o antigo cais e cadeia a Nascente da Ribeira do Moreno.
Em Agosto, ali se ficava vendo os Ford Escort RS a fugirem de trás, os minis a fazerem esses, os opels a roncarem como demónios, quando vindos do Funchal e se dirigiam, no decorrer do rali da Madeira, para a apertada estrada de paralelepípedos que conduzia ao campo de Golfe.
Ali, onde eu esperava pelo meu avô, de cabelo já muito ralo e branco, escondido pelo chapéu preto, levemente caído para o lado, que sempre tinha dois cruzados ou cinco tostões , daqueles brancos, com uma cabeça de mulher, e com alguma prata, para uma guloseima. Sim porque eu herdara o nome dele, e não apenas o sobrenome. Era o seu primeiro neto. Recordo esse tempo em que íamos à missa das seis da manhã de domingo, dita pelo enorme Padre Gabriel.
O avô levava-me a ver os barcos a varar e ensinava-me o nome dos peixes. Ele adorava congro. Dizia: " congro é comer e coçar no lombo". Aquele homem marcou a minha vida, desde que me lembro. Ensinou-me a arte da poda, da enxertia, do sacudir o restolho, de reerguer paredes, de fazer vinho... Sei lá! Não me ensinou a ler, porque não sabia, mas no dia em que fui pela primeira vez para a escola, comprou-me uns sapatos e disse-me: - aprende a ler e a escrever, para poderes ler ao avô o jornal. Era um homem do seu tempo. Um bom homem, sobretudo ao domingo, quando me dando cinco tostões me dizia : - Não gastes tudo num dia, guarda o que ficar, pois não sabes o que vai acontecer amanhã.
Muitas vezes ouvi este conselho, e muitos outros que me serviram no caminho da existência.
O avô há muito que foi, a mulher também, o local foi engolido pelo aumento do aeroporto, mas na memória tudo permanece: o cheiro do bolo de arroz e o sorriso de satisfação daquela mulher que todos os domingos continua encostado no poste de electricidade, no Medeiros com a giga branca e o tabuleiro enfeitado de recordações. O menino, timidamente dirige-se para lá em busca dos aromas da infância.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Gaula

Gaula, freguesia que se estende da serra ao mar, conhecida, desde os tempos que já lá vão, como a terra dos doutores. Doutores porque, apesar de pequena em número de habitantes, foi grande em licenciados (o que há 80 anos atrás era muito raro, pois a educação não chegava a todos, mas a penas a alguns), destacando-se um que julgo ser conhecido de todos: Padre Alfredo Vieira de Freitas, sacerdote, escritor, poeta e professor de Português e de Literatura Portuguesa.
Gaula, terra que me viu crescer e da qual guardo doces recordações.
Recordo-me da minha infância e das brincadeiras que partilhava com os meus dois irmãos (porque nesse tempo as criaças sabiam o que era brincar); da minha escola (e o meu primeiro castigo por não saber a tabuada!); das festas da santa padroeira, que nós aproveitávamos para dar uma olhadela de esguelha aos rapazes; do grupo de jovens; da Tuna e do tempo de namoro!!
Recordações, guardámo-las como pequenos tesouros que só a nós pertencem!

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Gaula

Já decidi que vou escrever sobre Gaula, mas ainda não tive tempo de organizar o texto.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Santana,memórias de infância

Escolhi a freguesia e cidade de Santana por estar ligada à minha infância, não por lá ter nascido, mas sim por lá ter passado algumas semanas de férias, só interrompidas pelas "bexigas" na pele de todo o corpo, sinal de alergia aos ares do Norte.
Ficaram-me como lembranças os sons, os cheiros, as cores, a simplicidade cândida das pessoas, o candeeiro a petróleo na mesa da cozinha, os pães brancos e redondos a entrarem nos fornos e mais tarde a serem retirados por uma mulher forte e de rosto vermelho, mais vermelho que as brasas do próprio forno. Ainda lhe sinto o cheiro a transpiração misturado com o cheiro do pão, este sim, agradável e fofo, rapidamente enfileirado numa toalha branca para poder ser apreciado pelos olhares curiosos e ... gulosos daquela "gente da cidade".
- Que coisa esquisita esta, mal chega aqui e já começa com bexigas!
Era o que dizia a senhora forte e vermelha, decepcionada por minha mãe ter de voltar mais cedo. Mas não havia remédio, era preciso regressar! E...regressei, vezes sem fim regressei, e comigo as minhas lembranças daquele pão divinal, que hoje evito afinal! ... Coisas da linha!