Era pela maresia infantil das manhãs de e domingo, ainda eu vestia calções e usava “arrigeiras” pelos ombros, cruzadas no meio das costas. Lembro bem o cheiro do bolo de arroz feito de madrugada, e o sorriso da Sr.ª Madalena, quando me via chegar com os dois cruzados fechados na mão, de olhos vivos e brilhantes de desejo ao sopé da cabana do barbeiro. Ali estava ela com o balcão enfeitado de bordões, suspiros e colares multicolores de gulosos rebuçados. Recordo o aroma dos suspiros e os bolos de arroz alinhados a um canto do tabuleiro, alinhados como guerreiros; a giga, de vime descascado, servindo de pilar e apoiado no “pagão” de EEM, com a sua lâmpada, protegida por um prato branco na face inferior e verde na outra, ficava um bordão de cana e o guarda-chuva. Era ali, no Medeiros, no antigo entroncamento para o Santo da Serra, na cabeceira quatro do aeroporto, em frente da “bebreira” preta, que descia despreocupada o muro em pedra aparada e fazia as delícias dos fedelhos, no mês de Setembro, que ela todos os santos domingos montava a sua banca, pelas sete da matina.
O Silva, o barbeiro, desde as cinco que cortava cabelo e desfazia rijas barbas de rudes homens da lavoura, a sua petromax espalhava uma luz branca, visível, a muitos metros e que se tornava quase sol, quando eu passava em galhofa com os meus irmãos e vizinhos, pouco antes das seis, por debaixo das janelas que davam para o mar e para o enorme dragoeiro que embelezava a descida para o antigo cais e cadeia a Nascente da Ribeira do Moreno.
Em Agosto, ali se ficava vendo os Ford Escort RS a fugirem de trás, os minis a fazerem esses, os opels a roncarem como demónios, quando vindos do Funchal e se dirigiam, no decorrer do rali da Madeira, para a apertada estrada de paralelepípedos que conduzia ao campo de Golfe.
Ali, onde eu esperava pelo meu avô, de cabelo já muito ralo e branco, escondido pelo chapéu preto, levemente caído para o lado, que sempre tinha dois cruzados ou cinco tostões , daqueles brancos, com uma cabeça de mulher, e com alguma prata, para uma guloseima. Sim porque eu herdara o nome dele, e não apenas o sobrenome. Era o seu primeiro neto. Recordo esse tempo em que íamos à missa das seis da manhã de domingo, dita pelo enorme Padre Gabriel.
O avô levava-me a ver os barcos a varar e ensinava-me o nome dos peixes. Ele adorava congro. Dizia: " congro é comer e coçar no lombo". Aquele homem marcou a minha vida, desde que me lembro. Ensinou-me a arte da poda, da enxertia, do sacudir o restolho, de reerguer paredes, de fazer vinho... Sei lá! Não me ensinou a ler, porque não sabia, mas no dia em que fui pela primeira vez para a escola, comprou-me uns sapatos e disse-me: - aprende a ler e a escrever, para poderes ler ao avô o jornal. Era um homem do seu tempo. Um bom homem, sobretudo ao domingo, quando me dando cinco tostões me dizia : - Não gastes tudo num dia, guarda o que ficar, pois não sabes o que vai acontecer amanhã.
Muitas vezes ouvi este conselho, e muitos outros que me serviram no caminho da existência.
O avô há muito que foi, a mulher também, o local foi engolido pelo aumento do aeroporto, mas na memória tudo permanece: o cheiro do bolo de arroz e o sorriso de satisfação daquela mulher que todos os domingos continua encostado no poste de electricidade, no Medeiros com a giga branca e o tabuleiro enfeitado de recordações. O menino, timidamente dirige-se para lá em busca dos aromas da infância.
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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
sábado, 31 de janeiro de 2009
Gaula
Gaula, freguesia que se estende da serra ao mar, conhecida, desde os tempos que já lá vão, como a terra dos doutores. Doutores porque, apesar de pequena em número de habitantes, foi grande em licenciados (o que há 80 anos atrás era muito raro, pois a educação não chegava a todos, mas a penas a alguns), destacando-se um que julgo ser conhecido de todos: Padre Alfredo Vieira de Freitas, sacerdote, escritor, poeta e professor de Português e de Literatura Portuguesa.
Gaula, terra que me viu crescer e da qual guardo doces recordações.
Gaula, terra que me viu crescer e da qual guardo doces recordações.
Recordo-me da minha infância e das brincadeiras que partilhava com os meus dois irmãos (porque nesse tempo as criaças sabiam o que era brincar); da minha escola (e o meu primeiro castigo por não saber a tabuada!); das festas da santa padroeira, que nós aproveitávamos para dar uma olhadela de esguelha aos rapazes; do grupo de jovens; da Tuna e do tempo de namoro!!
Recordações, guardámo-las como pequenos tesouros que só a nós pertencem!
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
sábado, 24 de janeiro de 2009
Santana,memórias de infância
Escolhi a freguesia e cidade de Santana por estar ligada à minha infância, não por lá ter nascido, mas sim por lá ter passado algumas semanas de férias, só interrompidas pelas "bexigas" na pele de todo o corpo, sinal de alergia aos ares do Norte.
Ficaram-me como lembranças os sons, os cheiros, as cores, a simplicidade cândida das pessoas, o candeeiro a petróleo na mesa da cozinha, os pães brancos e redondos a entrarem nos fornos e mais tarde a serem retirados por uma mulher forte e de rosto vermelho, mais vermelho que as brasas do próprio forno. Ainda lhe sinto o cheiro a transpiração misturado com o cheiro do pão, este sim, agradável e fofo, rapidamente enfileirado numa toalha branca para poder ser apreciado pelos olhares curiosos e ... gulosos daquela "gente da cidade".
- Que coisa esquisita esta, mal chega aqui e já começa com bexigas!
Era o que dizia a senhora forte e vermelha, decepcionada por minha mãe ter de voltar mais cedo. Mas não havia remédio, era preciso regressar! E...regressei, vezes sem fim regressei, e comigo as minhas lembranças daquele pão divinal, que hoje evito afinal! ... Coisas da linha!
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